...
ardido nombre en la boca,
¿cal o lumbre?
primer sabor,
saliva o espuma del mar –
errantes rocas
agua de las fuentes,
gitanas de los montes,
un acorde de luz.
frío.
la noche en el incendio.
Poema do trabalho “vocales de la memoria” composto por 70 poemas
pássaros presos ao vento haikais com sabor a tankas
espelha amor num abraço.
fogueira na terra.
escutar as pétalas
do meu perfume esquecido,
o teu jovem rosto.
águas de verão,
quando o sol arde nas fontes,
os pés nus descalços.
respirar teus olhos,
nas cores de borboleta.
as flores de sol.
abraço o fogo
no segredo do teu nome,
perfume de pele.
Poemas publicados no Diário de Notícias suplemento jovem
Inseridos na colectânea “artificies das palavras”
Le donne del mare
senza il suo polso arido, feroce.
Il mare non ha nome ma respira uccelli.
Le donne guardano, impavide,
aspettano che il sole restituisca le ceneri,
aspettano una nuova germinazione.
Tastano l’acqua fino a quando è sale, stendono i ventri
e i panni inzuppati di varechina.
E alzano, dall’orlo, il lenzuolo del mare
per piangere la morte dei propri figli.
C’è un fuoco nei loro seni,
nelle madri di schiuma e argilla, so che c’è
una luce bianca che fugge dai loro corpi,
e ne apre le memorie, le ferite, i dolori.
Mordo il silenzio nell’ultima nudità.
E le donne del mare feriscono le proprie vene,
con saliva, spremono il sangue freddo e il fango
sulla terra morbida.
L’amore scalda il loro cuore, scruta
la loro memoria nelle lacrime che sfuggono
alla vita. Abbraccia la violenza dei loro ricordi.
E le donne odorano a pelle corrugata dal caldo della calce.
E gli uomini si lanciano in mare,
per le sue strade nude.
Lo lacerano, per saziare la fame delle proprie anime.
E c’è sete nella sabbia, nelle vecchie barche che naufragano,
nei pescatori che fumano sigarette, che fumano la vita
oltre l’orizzonte, quando la memoria
è un immobile gesto, crasso, che violenta la vita,
che rompe le parole
e incendia i sessi fino all’acqua, fino all’ultima perdita.
1º Premio del Concorso Internazionale di Poesia “Castello di Duino” 2005
(Triste, Itália – 20 Março 2005)
Inserido na colectânea bilingue “Il Gesto della Memoria - the gesture of the memory” pela editora italiana Ibiskos.
"Os gestos das mães" poema do livro “Luz Extinta”
e o sonho, ceifam pássaros e a frescura do destino.
Eis a água anterior à sede, os gestos das mães oliveirenses,
com os ventres a esquivarem-se entre os riachos e o mar.
Abre-se, a espuma e o silêncio, odor a chuva,
horizonte trémulo, gérmen e última nudez.
Sílabas segregadas, não. Verticalmente? Não! Não!
Escreve-se nome de mulher nesta cidade,
árvore por exemplo, a encurvar o tempo e as flores do sol.
Os pulsos negros de um cavalo,
a rasgarem as veias da terra, as mulheres a abrirem a pele
para encontrarem o poema, o caminho para os seus terraços,
o arbusto de argila, o meu nome na saliva de uma rapariga.
Eis a criança ruiva, a soletrar esta minha luz extinta.
Poema do livro “Luz Extinta”
Trabalho composto por 50 poemas em 2004
"Cirros" do livro “a voz do silêncio”
será um pequeno pintor do horizonte,
sem nunca ter pintado...
E todas as unhas dos pensamentos
que ritmicamente fluirão,
não violarão a vontade cristalina
do agreste e iludível limão azul!
Eis que reclamei a convalescência,
sem nunca ter reclamado...
Vi a vertiginosa e acidental
doença venenosa dos leucócitos
fluorescentes no aço das cordas
de Ménades que circula uma estranha
pulsação da analepse do tempo!
E falará a alma do meu espírito,
sem nunca ter falado?
E não falará pela voz da paz do pecado?
Tomarei novamente o rumo,
que nunca tomei;
e viajarei à velocidade
de mach 6 atingindo
o que nunca atingi,
e dissolver-me-ei na plenitude
do pó explorado e evaporado
do nirvana que imperfeita a perfeição
e contemplação do ser
até nunca ter
o que sempre tive!
Aonde estará esse fogo que vi,
sem ter visto!?
Aonde se esconderá esse amor que cruzei,
sem ter cruzado!?
Aonde reinará esse suspiro que admirei,
por ter admirado!?
Em pequenas vozes que senti,
e não ouvi;
em grandes sentimentos que ouvi,
e não senti;
em estradas que cheirei,
sem ter cheirado;
em estrelas que dissolvi,
sem ter dissolvido;
amarei apenas um só instante,
sem nunca ter amado...
Poema do livro “a voz do silêncio”
1º Prémio Nacional de poesia Juvenil Ferreira de Castro
Trabalho composto por 67 poemas
O Homem da Concertina
podemos ver algumas das fotografias por ele publicadas.
O "Homem da Concertina" é a sua imagem de eleição.
Porquê?...
Sobre o poema “As mulheres do mar.”
First prize: "for the capacity to symbolize in an original and mature language, capable of translation in rhythmic images of bright revelation, the landscape and figures of a seafaring community: men and women who challenge the sea by living a humble and courageous life, giving form to a broader existential allegory." (A part of the prize has been given to the Xanana Gusmao Foundation whose main purpose is to create new schools and to promote the education of poor children).
Júri do concurso internazionale di poesia “Castello di Duino”
Sobre o trabalho “Os Filhos Baldios”
“Um livro que logo no início nos toca o sensível e o social. A voz que diz os subúrbios, as exclusões, numa linguagem que por vezes roça os limites da revolta. Uma outra forma de dizer os dias sujos, o que socialmente não queremos e nos dói, num discurso de que a poesia contemporânea, estranhamente, se ausenta: dar a ver é uma das funções do poeta e para tanto nem precisa de ser poeta comprometido; basta-lhe estar atento aos rumores do seu tempo.
O real quotidiano em discurso contido, a dizer a essência da indignação. Um livro a merecer distinção.”
Domingos Lobo, jurado do grande prémio nacional de poesia Natércia Freire
Prémios Obtidos
4º poema premiado no Concurso “As Palavras do Amor”
(Arouca, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, São João da Madeira e Vale de Cambra – 1999)
Menção Honrosa na 3ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”
(Ovar – 1999)
1º Prémio Poesia, escalão B – Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Secundária Ferreira de Castro
(Oliveira de Azeméis – 2000)
1º Prémio Nacional de Literatura Juvenil “Ferreira de Castro”
(Oliveira de Azeméis – 2000)
Menção Honrosa no Concurso Literário “A Poesia no Teatro da Vida” – grupo de teatro o Gota
(Oliveira de Azeméis – 2001)
1º Prémio no Concurso Literário “A Poesia no Teatro da Vida” – grupo de teatro o Gota
(Oliveira de Azeméis – 2001)
Menção Honrosa na 6ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”
(Ovar – 2002)
1º Prémio no Concurso Nacional “As Palavras e o Sonho”
(Biblioteca Almeida Garrett, Porto – 2002)
2º Prémio do III Concurso Nacional de Poesia “Agostinho Gomes”
(Oliveira de Azeméis – 2002)
Menção Honrosa no Concurso Nacional de Poesia Tomaz de Figueiredo
(Arcos de Valdevez – 15 Junho 2003)
Menção Honrosa na 7ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”
(Ovar – 27 Junho 2003)
Menção Honrosa no Concurso Literário “Aveiro Jovens Criadores 2003”
(Aveiro – 25 Julho 2003)
Menção Honrosa na 8ª Edição do Concurso Literário “Dar Voz à Poesia”
(Ovar – Junho 2004)
1º Prémio no Concurso Literário “Aveiro Jovens Criadores 2004”
(Aveiro – 3 Setembro 2004)
1º Premio del Concorso Internazionale di Poesia “Castello di Duino” 2005
(Triste, Itália – 20 Março 2005)
Menção Honrosa no V Concurso de Poesia de Alenquer
(Alenquer – Maio 2005)
1º Prémio no III Concurso de Poesia e Ficção Narrativa Montijo Jovem 2005
(Montijo – 2005)
2º Prémio Literário Irene Lisboa
(Arruda dos Vinhos – 23 Setembro 2005)
Menção Honrosa no Grande Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire
(Benavente – 26 Novembro 2005)
1º Prémio no Concurso Jovens Criadores de Idanha, comemorações dos 800 anos
(Idanha-a-Nova, 23 Janeiro 2006)
Menção Honrosa no Concurso de Poesia de Arraiolos
(Arraiolos, Fevereiro 2006)
1º lugar no Prémio Afonso Lopes Vieira
(Leiria, 22 Maio 2006)
1º lugar no prémio nacional de poesia Comemorações do Outorga do Foral – “descobrir Viana”
(Viana do Castelo, Julho 2006)
Luz Extinta

Há cerca de quatro anos atrás, prefaciei o primeiro livro do Luís. Um pequeno texto que me saiu da emoção e da razão. Hoje, com similar emoção e talvez menos razão – envelhecer traz-nos destas prerrogativas, poupando-nos aos juízos implacáveis dos maldizentes de função e feição – inicio o prefácio do seu segundo livro.
E não seria eu, se não começasse por agradecer-lhe o carinho com que, uma vez mais, me convidou, similar ao que sinto aceitando o seu convite. Desta vez, não quero falar do seu ”labor” poético, que o é, sem a menor dúvida. Por subjectivas razões, que, espero, ele me perdoará, depois destas palavras.
Direi apenas que os últimos poemas, que me deu a ler, são pérolas de outro mar, que é também este, mas não o é. Ou seja, e ainda bem, o Luís não é só esta lição – como o é todo o acto poético – de som e sentido; é algo mais, o que, neste meu registo, equivale a muito mais.
Depois, pedir-lhe-ei licença para abordar, ainda que imperfeita e incompletamente, o centro deste livro – a sua essência iluminada – tentando “justificar” o que, para mim, ele significa.
Como verão, “Luz Extinta”, é um livro oliveirense, no mais rico dos sentidos; dos sentires. Mas, podia sê-lo muito mais. Explico: nasci num tempo outro, por puro privilégio do fado, e embora o não tenha confirmado, sei que serão muito poucas as figuras nomeadas que fisicamente poderão ter privado com o poeta. O que, em minha opinião, só engrandece este discurso apaixonado por raízes (as minhas raízes!).
Neste sentido, faltam-me rostos, vozes, gestos, o passado/presente de quem se maravilha com o respirar tranquilo da “vila”. Sinto-lhes a ausência, mas compreendo que, talvez, nunca a sua memória tenha encontrado no Luís o porto de abrigo, que exorciza o esquecimento.
Pelo dito, quero considerar este livro perenemente por acabar. Porque nele se inscreverão muitas outras “luzes” oliveirenses, passadas, presentes e futuras.
Diz o povo que “santos de casa não fazem milagres” e nós, nados e criados em terras de La-salette, que são também Terras de Sta. Maria, mais preocupados com néons distantes, olvidamos com demasiada facilidade aqueles que inscreveram a terra-mãe na cultura de um povo. Este livro dá-lhes o sopro que impede o esquecimento. Um sopro poético iluminando o que neste oliveirenses impressionou o poeta. E, lado a lado, numa fraternidade de origens, o universal Ferreira de Castro, que saudava as novas plantas tirando o chapéu, une-se à luz das imagens de Fernando Paul e a todas as outras vozes recuperadas. O paradoxo do título é, pois, isso mesmo: a anulação do esquecimento pela poesia. Não esqueço as casas: hinos ao que tão levianamente temos vindo a deixar destruir por máquinas cegas; implacáveis! E cada casa que sucumbe, da mais humilde à mais rica, é uma memória espezinhada: a pura impossibilidade de a transmitirmos aos nossos filhos, até porque a luz do senhor Paul fixou este viver, mas não pode presentificar o que – sem necessidade – deixámos levar pelos ventos “civilizados”.
E tanto mais me oferece esta “Luz Extinta”, que aqui não cabe dizer.
Fica o desejo de que o livro, para além de fruição poética, gere nos oliveirenses o legítimo orgulho de o serem.
Filha assumida desta terra, registo aqui o meu profundo agradecimento ao poeta.
Ivone Bastos Ferreira
Mês de Maio de 2004
Filhos Raianos

A voz do silêncio

são vómitos do inferno!”
Ao Luís
com a admiração que o labor
do seu percurso poético
inteiramente me merece.
Aspiração da palavra poética ao uno, à totalidade; inacessibilidade dolorosíssima do eterno, demasiado humana.
Poesia instauradora de múltiplos jogos de tensões, concretizada, precisamente, num todo que é, por exclusivo poder da criação, um mundo outro, aberto ao indizível, ao que imperfeitamente só pode ser nomeado através da convocação densa das metáforas, ou sua irreparável ausência:
“Não existem metáforas, capazes de imprimir o silêncio ensurdecedor na tristeza que me dissolve…”
O poema abre-se ao jogo infinito das vozes que o habitam, estendendo suas redes finíssimas de plurissignificação:
“Aristóteles e Modigliani praticam palavras na sodomia dos verbos intolerantes e toleráveis…”
“A Voz do Silêncio” do Luís, poeta dado agora a conhecer pelo Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro, é, antes de mais, uma tessitura de silêncios corporizada em vários andamentos-vozes, percorrendo a incessante busca dos sentidos, no seio desse imenso ruído interior e social que é o silêncio, transmutado, – infernalmente – por força do verbo, em:
“Livros: folhas: palavras: desejos…”
Encruzilhadas enlouquecidas à flor da pele: interminável eco da consciência de saber-se manietado pela intraduzível força das palavras.
Cumprida a catarse, eis o poeta ascendendo dessa peregrinação abissal povoada de monstros, interior e incessantemente (re)criados, poema a poema, para cumprir na maldição órfica da sua existência o caminho de todas as miragens.
No seio do ancestral labirinto que é a literatura, esta é uma nova e poderosa inscrição de gritos “íngremes”.
Ivone Bastos Ferreira

Sobre o Luís, nas palavras
Trata-se de uma escrita de grande teor pictórico submersa na clareza das suas imagens. Traduzindo a realidade, apurando os sentidos e desregrando-os em reminiscências simbolistas, nas pegadas de Rimbaud, no arfar de Ramos Rosa.
“Já imerso da água, esta sede vazia solfeja-me / nas entranhas, entoa-me o grito em labaredas”.
Uma escrita amadurecida, exorcizada, isenta de artifícios ou desvios inutilmente retóricos. Fruto de uma tradução directa do quotidiano. Não há transcendente, não há divino. Há o fascínio exaustivo pelos dias que são somente dias: “homens cheios de vozes, sabores, alegrias. / esperam as mulheres com o cheiro do vinho / nos dedos, na boca, nas bocas, esperam / com os filhos atados às pernas, à bacia do corpo”.
Não pretende intervir, não pretende provocar, não pretende chocar, não pretende deleitar, diagnosticar, ou prever. Definitivamente, não pretende. E por isso consegue-o. Alcança, penetra, cria ambiências, transporta o leitor, embala-o e quando decide, sem mais nada, acabar, cospe-o novamente para a realidade, deixando-o aturdido na linha vertiginosa que separa o mundo lírico do mundo dito concreto. Entrega o leitor à “múltipla esquizofrenia das minhas pálpebras”.
Apesar das fontes de influência, ler Luís Aguiar é assistir à formação de um universo díspar, autêntico. Com toda a violência que só a autenticidade consegue conferir.
“Eis o meu lugar esquecido: / a noite branca, extensa em toda / a visão”.
Um desafio assíduo de conflito do íntimo com o seu próprio reflexo e com o exterior ou então o confronto com a hipótese da fusão de ambos numa afinidade inovadora, na criação. Um autor de referência.
Sara F. Costa